NATUREZA MORTA
PAUL CÉZANNE, 1839-1906.
"Natureza Morta com Frutas"
Em um canto da cozinha, a madeira deita a sua presunção de caule: grave, intrínseca, abundante. Lisa, a superfície é escorregadia ao toque; um fio agudo, laminar, bidimensional ao olhar precipitado. O horizonte inteiro - bem ao centro, um nó amesquinha. No alto, na paragem da travessa, há maçãs conspirando a discórdia; a sedução astuta das delícias avinagra-lhes a linfa do cerne. Do proibitivo, do claustro, sendo redondas de contorno, algumas rolam (acidentalmente?), estranha fixação em quedas, e despudoradas ao derradeiro grau, atiçam-nos a navalha da boca com o acetinado da tez vegetal, onde um fortuito raio de luz se dilui.
Em tempo: A pintura é "Natureza Morta com Frutas", de Paul Cézanne.
Diz-se de uma pintura ou desenho agrupando certo número de seres e objetos inanimados (sem ânimo, morto), não necessariamente mortos, porém imóveis, frutas, flores, peixes, animais de pequeno porte, livros, vasos etc.
A aparência de uma natureza-morta varia, portanto enormemente, segundo a inclinação pessoal e a fantasia do seu autor.
O termo natureza-morta foi criado pelo holandês Houbraken em sua história da Arte, publicada em inícios do séc. XVIII, tornando-se universalmente aceito por volta de1800. O gênero, contudo, já era praticado entre os chineses no período Ch’in (265-420), e naturezas - mortas a parecem nos mosaicos da Grécia e de Roma nos murais de Pompéia e na arte paleocristã.
A idade média negligenciou-a, todavia a partir do séc. XV renomados pintores como Carlo Crivelli, por exemplo, redescobriram o gênero, passando a cultivar a natureza morta com veemência. (Arrebatado, impetuoso. Enérgico, forte. Entusiástico. Intenso).
As primeiras naturezas-mortas do séc. XV surgem como por menores de retábulos, e não como motivos isolados, e Van Eyck Vender Góes, (mestre de Flemalle) como algo digno de ser representado por si mesmo no séc. XVI, com alguns raros quadros e desenhos de Jacope de Barbari Lucas Granach, Albrecht Durer e outros.
Tal como na pintura de gênero, os verdadeiros criadores da natureza-morta foram os holandeses do séc. XVII, seguindo a trilha aberta por artistas como Peter Bruders.
Em França, o principal cultor do gênero foi Chardim, no séc. XVIII. No século seguinte, a natureza morta desenvolveu-se extraordinariamente com artistas como Cézanne, Van Gogh, Monet, Gauguim e outros.
Cézanne
ALDO BONADEI - 1906, SÃO PAULO, SP - 1974.
No século atual enfim, vem sendo praticada por artistas como Braque, Juan Gris, Picasso, Bonard,
os quais renovam incessantemente, à medida que se sucedem os diferentes estilos artísticos.
Objetos inanimados são representados na pintura desde a Idade Média, em geral como fundo de pinturas religiosas de cunho realista. Mas é somente em meados do século XVI que a natureza-morta emerge como gênero artístico independente em obras de pintores como Pieter Aertsen (1507 ou 1508-1575) e a.C.1510-(1592), que articulam os temas religiosos à vida cotidiana e às cenas de gênero. As composições simbólicas e grotescas de Giuseppe Arcimboldo (a.C.1527-1593) - com frutas, animais e objetos compondo figuras - alimentam o desenvolvimento da natureza-morta no período.
Giuseppe Arcimboldo
Na passagem para o século XVII, a figuração documental exigida pelas ciências naturais joga papel destacado na valorização de uma arte que almeja representar os objetos e a natureza tais como empiricamente observados (por exemplo, Jacopo Ligozzi (1547-1627). Assim o processo de paulatina autonomia da natureza-morta acompanha tanto a pintura naturalista (associada à ilustração científica) quanto a pintura de gênero, exemplarmente representada pelos artistas holandeses do século XVII e seus temas domésticos, figurados com riqueza de detalhes. Os objetos freqüentemente escolhidos para compor as naturezas-mortas são: mesas com comidas e bebidas, louças, flores, frutas, instrumentos musicais, livros, ferramentas, cachimbo, tabaco etc., todos referidos ao âmbito privado e à esfera doméstica, às vocações e aos hobbies, à decoração e ao convívio no interior da casa.
A opção pela "pintura natural das coisas naturais" (destacando à presença do corpo e à realidade pormenorizada do objeto, revelados pelos contrastes de luz e sombra), a escolha de tipos populares para compor cenários religiosos e o gosto pelas cenas de gênero marcam as obras do pintor milanês, um dos primeiros a desafiar a hierarquia imposta pelos teóricos da época, que viam a natureza-morta como tema menor. A desvalorização desse gênero pictórico reflete-se na sua própria denominação nas línguas latinas, "natureza-morta", "nature morte" e nas línguas saxônicas o gênero é conhecido como "still life", "stilleben" [vida imóvel, vida em suspensão]. "Custa-me tanto trabalho fazer um bom quadro de flores, quanto um quadro de figuras", afirma ele. Na Espanha, Juan Sánchez Cotán (1560-1627) renova o gênero, valendo-se da abertura de janelas para emoldurar os objetos (Natureza-Morta com Marmelo, Couve, Melão e Pepino, 1600).
FRANCISCO DE ZURBARÁN
No sul do país, o tema é adotado por Francisco de Zubarán (1598-1664), que desenvolve uma obra religiosa naturalista, produzindo paralelamente uma série de naturezas-mortas e cenas de gênero. Em Madri, Juan van der Hamen y León (1596-1631) confere novos contornos à natureza-morta, dispondo os objetos em diferentes níveis e reduzindo o número de elementos da cena (Natureza-Morta com Frutas e Objetos de Cristal, 1626).
Jean-Siméon Chardin (1699-1779) é o grande pintor francês de naturezas-mortas e obras de gênero. No célebre A Arraia (1728) evidenciam-se suas preferências de composição: a prateleira de pedra e a austera ambiência interior, os objetos dispostos segundo uma ordem prática (sugerindo atividade humana), as texturas do linho e da cerâmica, o gato em meio às ostras e a arraia sangrenta no centro do quadro. As pequenas telas de Chardin - com objetos de cozinha e seus usuários, ambientes domésticos e cenas cotidianas - filiam-se à tradição da pintura de gabinete.
CHARDIN, JEAN-BAPTISTE SIMÉON 1699-1779 FRANÇA.
No século XIX, os impressionistas, ainda que afeitos às paisagens ao ar livre, vão realizar naturezas-mortas, mas é com Paul Cézanne (1839-1906) que o gênero ganha novas dimensões, imortalizado pelas composições com maçãs executadas a partir de 1870. Ao contrário de Chardin, cujas naturezas-mortas aludem ao trabalho da preparação do alimento na cozinha, assim como aos instrumentos do artista, nas naturezas-mortas de Cézanne os objetos parecem desligados de seu uso. "Suspensas entre a natureza e a utilidade, [as maçãs de Cézanne] existem apenas para serem contempladas", indica o historiador norte-americano Meyer Schapiro.
Os arranjos de objetos díspares nas diversas composições e colagens de Juan Gris (1887-1927), Pablo Picasso (1881-1973) e Georges Braque (1882-1963) associam a natureza-morta diretamente ao cubismo, ainda que o gênero atravesse toda a arte moderna, como indicam as obras de Vincent van Gogh (1853-1890), Fernand Léger (1881-1955), Henri Matisse (1869-1954), Chäim Soutine (1893-1943), Pierre Bonnard (1867-1947), entre outros.
GEORGES BRAQUE
Giorgio Morandi (1890-1964) é dos pintores modernos o que mais se concentra em naturezas-mortas. Seus objetos - garrafas, candelabros, potes -, compostos a partir de combinações cromáticas sutis, são esvaziados de conteúdos simbólicos e literários, o que confere a essas obras uma dicção altamente pessoal.
Giorgio Morandi (1890-1964)
Na história da arte brasileira as composições com frutas e vegetação de Albert Eckhout (ca. 1610-ca. 1666) encontram-se entre as primeiras naturezas-mortas realizadas entre nós. É possível acompanhar o gênero durante o século XIX, com as produções de Agostinho da Motta (1824-1878) e Estevão Silva (ca. 1884-1891),
TANKERD, CRISTAIS, FACA E FRUTAS SOBRE UMA MESA O.S.T. 60 X 50 cm.
Agostinho da Motta
Estevão Silva
SAPOTIS, PITANGAS E CAJUS - O.S.T. 1888 - 38 X 45 cm.
JEAN-BAPTISTE DEBRET
“FRUTAS”.
significativos pintores no gênero no contexto carioca. Já em São Paulo, sobretudo na primeira metade do século XX, destaca-se a produção de Pedro Alexandrino (1856-1942). Com os artistas reunidos no Núcleo Bernadelli e Grupo Santa Helena, nas décadas de 1930 e 1940, a natureza-morta ganha uma nova importância no contexto da
Pedro Alexandrino Borges.
NATUREZA MORTA - O.S.T -73,5 X 92 cm.
arte brasileira. Nos anos de 1950, Milton Da Costa (1915-1988), Maria Leontina (1917-1984), Iberê Camargo (1914-1994), entre outros, realizam naturezas-mortas.
FONTES DE PESQUISA
BROWN, Jonathan. Pintura na Espanha, 1500-1700. São Paulo: Cosac & Naify, 2001, il.p&b. color. 283 p. [Pelican History of Art]. CHASTEL, André. A arte italiana. Tradução Antonio de Pádua Danese. São Paulo: Martins Fontes, 1991, 738p. il. p&b. COTTINGTON, David. Cubismo. São Paulo: Cosac & Naify, 80 p. il.p&b. color [Movimentos da Arte Moderna]. LA NUOVA ENCICLOPEDIA DELL´ARTE GARZANTI. MILÃO: Garzanti Editore, 1986. 1112p. il. p&b, color.
LEVEY, Michael. Pintura e escultura na França, 1700-1789. São Paulo: Cosac & Naify, 318 p, il.p&b. color.[Pelican History of Art]. MORANDI NO BRASIL. Textos de Célia Euvaldo, Paulo Montero e Lorenzo Mammi. Centro Cultural São Paulo, s/d, 44 p. il. p&b. color. SCHAPIRO, Meyer. As maçãs de Cézanne: um ensaio sobre o significado da natureza-morta (1968). In: ______. A Arte moderna séculos XIX e XX: ensaios escolhidos. Tradução Luiz Roberto Mendes Gonçalves; prefácio Willibald Sauerlander. São Paulo: Edusp, 1996. 345 p., il. p&b. color. (Clássicos, 3). VERDI, Richard. Cézanne. London: Thames and Hudson, 1997, 216 p. il. p&b. color. [World of Art]
“Vivemos graças ao caráter superficial de nosso intelecto, em uma ilusão perpétua. Para viver necessitamos da arte a cada momento, nossos olhos nos retêm formas, se nós mesmo educarmos gradualmente esse olho, veremos também reinar em nós uma força artística, uma força estética”. Nietzsche
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Muito obrigado por sua visita, o seu comentário é muito importante, é um prazer compartilhar arte com todos vocês, abraços
Alexandre Fester.